Quem se responsabiliza pelo ataque na área das telas de exclusão de Recife?
Os ataques de tubarão no Recife e Jaboatão nesses últimos 14 anos geraram as mais diversas pirotecnias.Houve candidato a vereador com nome de “O caçador de tubarões”, propostas para matar as espécies, impedir a pesca de camarões, proibir o banho de mar, apreender pranchas de surfe e uma infinidade de outras baboseiras típicas de sociedade mal informada. Passamos pouco mais de um ano sem ataques até os dois últimos no início deste inverno por descuido das vítimas e das autoridades públicas que relaxaram após um período sem ataque. Vou repetir a frase do especialista da UFRPE, Fábio Hazin, dita com sobriedade desde a comprovação do primeiro ataque em 1992: “Os tubarões vieram para ficar e teremos que aprender a conviver com eles”. É provavelmente a coisa mais importante dita em todos esses anos sobre os tubarões até mais dos que os motivos de migrarem para a costa urbana. Pouco importa agora, afinal a devastação ambiental de Suape não estancou e só tende a piorar. O fato é que temos um trecho de risco em algumas das mais famosas praias urbanas do Brasil e encarar esta realidade é a única saída honrosa. Propostas mirabolantes só mostram o quanto nós não conseguimos lidar com um problema que é relativamente simples de resolver através da convivência pacífica. Dá para tomar banho? Dá na beira com a maré seca em área protegida por arrecifes. Dá para evitar ser atacado? Dá se não se tomar banho na maré cheia, nem de no início da manhã, nem no final da tarde, nem depois das chuvas, nunca na maré cheia, nunca depois dos arrecifes, nem com água acima da cintura. Existe um porquê para cada uma dessas recomendações e é preciso que absolutamente todos saibam como se nascessem sabendo. Poderia fazer parte da educação formal nas escolas pernambucanas. Educação ambiental é a palavra chave para evitar os ataques, mas não para tirar os tubarões do mar de Boa Viagem. Eles não vão sair porque não têm aonde ir. É uma equação simples de entender. O Cemit em parceria com diversas entidades entre elas a UFRPE coordena dois trabalhos importantes: a pesquisa e captura seletiva das espécies e a campanha educativa nas praias pela ONG Oceanário. Na ausência desses dois instrumentos de combate aconteceram os dois últimos ataques após um recesso de um ano e dois meses. Não por coincidência, mas pelo descaso dos organismos públicos que patrocinam os trabalhos. O barco Sinuelo estava sem sair por causa de um contrato que faltava ser assinado pela Prefeitura do Recife. A campanha da ONG Oceanário vive em dificuldade pela inconstância de recursos para mantê-la em campanha de inverno a verão e em todos os finais de semana. Essas duas ações ao longo do ano passado evitaram ataques porque fizeram a população conviver com o problema e se manter informada sobre como se proteger. Não se garante proteção, aprende-se a tê-la. É sob esta concepção que julgo uma temeridade a maneira como vem sendo conduzida a instalação de telas de exclusão (mal chamadas de redes) na praia de Boa Viagem numa área de 200 metros que supostamente impediria a passagem dos tubarões. Para quem não lê, não se informa, não desenvolve o senso crítico talvez seja a solução, pode não ser por diversos motivos. O primeiro é “Quem vai se responsabilizar num caso de ataque na área da rede de exclusão: O Governo do Estado, a Prefeitura do Recife, o Cemit ou o Instituto Praia Segura, mentor e coordenador da idéia?” O confinamento de milhares de pessoas numa área restrita vai realmente excluir as demais e teremos pontos valorizados em detrimento de outros. Posso antever barraqueiros dando entrevista para televisão reclamando do movimento ter caído nos pontos deles. Veremos disputa de hotéis querendo a tal tela, além de surfistas se irritando com banhistas e vice-versa. Agregue-se a todos estes possíveis fatos o descaso da população com as informações sobre como evitar ataques, uma vez que optando pela área protegida não precisarão mais se preocupar. Este é talvez o problema mais grave, porque ataques continuarão ocorrendo fora da área das telas e a campanha educativa que seria o foco do trabalho de prevenção sai de cena ofuscada pela idéia de que só a rede garante a segurança. Numa analogia com a violência urbana é achar que dentro de casa por detrás das grades se está seguro dos assaltantes. Estar bem informado de como se proteger é mais eficaz que se esconder em falsas proteções. O pior das tais redes de exclusão além desta falsa sensação de segurança será no dia do primeiro ataque na área protegida. Todo um trabalho e investimento financeiro terá ido por água abaixo e a idéia de que “Boa Viagem não tem jeito” vai ficar incutida para sempre na população. Afinal, neste dia, veremos quem vai assumir a responsabilidade pelo ataque na área das tais telas.
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